Implementação da Lei antidesmatamento da União Europeia nos países do Mercosul: principais resultados e novos desafios
Em 30 de dezembro de 2024, entra em vigor a lei Antidesmatamento da União Europeia (EUDR). O objetivo dessa regulamentação é garantir cadeias de valor livres de desmatamento para produtos agrícolas que, no passado, se mostraram como fortes impulsionadores do desmatamento no âmbito global. O regulamento abrange as cadeias: soja, óleo de coco, látex, cacau, café, gado e madeira. As empresas sediadas na União Europeia (UE) serão diretamente penalizadas pela EUDR se comercializarem um desses produtos no mercado interno da UE. Essencialmente, a EUDR obriga esses distribuidores a registrarem suas transações com antecedência e enviar uma declaração abrangente de due diligence. Um componente central das obrigações de due diligence são as informações sobre o local exato de produção dos produtos agrícolas colocados no mercado europeu com base em dados de geolocalização.
Além disso, a EUDR exige prova de que a produção está em conformidade com a situação legal aplicável nos países produtores e que os principais princípios dos direitos humanos são respeitados. Embora as partes envolvidas pertencentes ao mercado da UE sejam diretamente afetadas pela EUDR, elas transferem essas exigências para seus parceiros comerciais nos países produtores, que, por sua vez, enfrentam o desafio de fornecer as informações e a documentação necessárias para não perder o acesso aos mercados da UE. Atualmente, observa-se um alto grau de incerteza nos países produtores com relação às exigências regulatórias da EUDR.
Cúpula do IGUAZU (IGUAZU Summit)
Entre a Alemanha e diversos países do Mercosul, há uma série de diálogos técnicos e de política agrícola. Essas instâncias organizaram em Puerto Iguazú, Argentina, uma reunião internacional (Cúpula do IGUAZU). O encontro ocorreu nos dias 14 e 15 de março de 2024 e foi discutida a implementação da EUDR com foco nos setores de soja e de carne bovina da Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai.
A cúpula teve como objetivo reunir os diversos stakeholders do setor privado, da política e da sociedade civil que, em um formato participativo, identificaram os desafios existentes na implementação da EUDR com o intuito de desenvolver soluções para superá-los.
Relatório
Este relatório contém uma análise dos resultados mais importantes da Cúpula do IGUAZU. Entre outras coisas, ficará claro que: a implementação da EUDR está associada a custos regulatórios consideráveis; a infraestrutura para uma implementação sem problemas da EUDR ainda precisa ser significativamente mais desenvolvida; os pequenos agricultores correm um risco particularmente alto de serem excluídos dessas cadeias de valor; e além das lacunas técnicas, também existem problemas de incentivo para que os atores dos países produtores invistam na implementação da EUDR.
Um pré-requisito fundamental para superar esses desafios é o estabelecimento de estruturas de comunicação viáveis entre a UE, as autoridades nacionais de fiscalização e as partes interessadas dos países produtores, a fim de desenvolver conjuntamente soluções para a implementação bem-sucedida da EUDR.
Autores
Thomas Dietz


O novo regulamento da União Europeia (UE) de combate ao desmatamento representa um passo significativo no combate ao desmatamento nas cadeias de suprimento de commodities agrícolas. No entanto, os requisitos de conformidade para rastreabilidade e transparência têm deixado muitos formuladores de políticas e empresas em países produtores e importadores confusos. No contexto do Brasil, dois produtos exportados afetados por essa legislação são a soja e produtos pecuários, dos quais uma parte substancial chega às fronteiras da UE.
A recente decisão do Supremo Tribunal Federal, que rejeitou a tese do marco temporal, garantindo os direitos constitucionais dos povos originários, é mais um exemplo da necessidade de construção de um novo pacto político no mundo rural brasileiro. É o que defende, nesta publicação, o cientista político Wellington Almeida.
Historicamente a produção brasileira de carne bovina está ligada a uma vasta devastação ambiental e agora encontra-se em uma encruzilhada. As discussões sobre o acordo comercial União Europeia – Mercosul aumentam ainda mais a importância de questões cruciais de sustentabilidade, mas, por outro lado, podem apoiar transformações no setor.

A agricultura orgânica e o mercado de orgânicos na Alemanha cresceram rapidamente nos últimos 20 anos. Desde 2000, a área de produção orgânica mais do que triplicou, e as vendas no varejo aumentaram mais de sete vezes. Em 2022 a área de produção orgânica era de 11%. Em 2021, ano do auge da pandemia de Covid-19, as vendas no varejo atingiram sua maior participação, 7%. Com relação ao faturamento de vendas agrícolas, os produtores de alimentos orgânicos atingiram uma participação de 7%.
O objetivo deste relatório técnico é apresentar um breve panorama da situação atual da rastreabilidade animal no Brasil, destacando os seus principais desafios e oportunidades, e propor uma série de medidas a serem implementadas principalmente pelo governo para que seja possível estabelecer um framework legal mínimo para a produção nacional de animais livres de desmatamento e reduzir a participação dessa cadeia produtiva sobre os processos de conversão de habitats naturais, degradação e desmatamento, em todos os biomas brasileiros.
Este artigo de Camila Dias de Sá (INSPER Agro Global), Claudia Cheron König (Fundação José Luiz Egydio Setúbal) e Niels Søndergaard (Universidade de Brasília) apresenta o debate científico no Brasil sobre a produção e expansão da soja e iniciativas que conferem maior responsabilidade pelas questões sociais e ambientais aos atores deste mercado.
O Brasil vem desenvolvendo sua Política Agrícola formalmente desde ao menos o início dos anos 50, quando o Presidente Getúlio Vargas editou o Decreto 29.803 de 1951. Naquela ocasião já se destacava a importância de se promover um maior desenvolvimento, produtividade e estabilidade da produção, dos mercados, dos preços dos produtos do campo e dos rendimentos dos produtores, com preços mais baixos para os consumidores. Muito atual!
Na Alemanha há uma ampla percepção na sociedade de que a redução do consumo de carne se faz necessária para promover uma alimentação sustentável, reduzir da produção de gases de efeito estufa, promover o bem-estar animal e preservar a biodiversidade.