A microrrevolução invisível na agricultura brasileira: microrganismos promovendo o crescimento de plantas

Enquanto o mundo discute como produzir mais alimentos sem destruir o planeta, uma microrrevolução silenciosa acontece nos campos brasileiros. Ela ocorre no solo, nas raízes das plantas e na interação entre microrganismos e culturas agrícolas. No centro dessa transformação estão os bioinsumos — soluções biológicas que vêm redefinindo a produção de alimentos. A mudança representa uma nova lógica de produção: substituir total ou parcialmente insumos químicos por produtos ou processos biológicos, aumentar a eficiência do uso de recursos e reduzir impactos ambientais — sem abrir mão da produtividade. Em outras palavras, produzir mais com menos, recuperando a saúde do solo, definindo uma pujante agricultura regenerativa. 

Poucos países avançaram tanto nessa direção quanto o Brasil. Mas esses frutos vêm de uma longa história de pesquisa, desenvolvimento tecnológico e industrial e suporte legislativo. Uma história que já conta com 70 anos. Além disso, o decreto Nº 10.375 de 26 de maio de 2020, lançou o Programa Nacional de Bioinsumos e o tema passou a ganhar maiores proporções.  Aqui vamos abordar a classe de bioinsumos que compreende microrganismos promotores do crescimento de plantas. Essa inclui tanto as bactérias fixadoras de nitrogênio atmosférico, como microrganismos relacionados a outros processos microbianos, por exemplo, solubilização de fosfatos. Os produtos comerciais que contêm esses microrganismos vivos são denominados, no Brasil, como inoculantes e, em alguns países, como biofertilizantes. 

Pesquisa, divulgação científica e os bioinsumos na soja – o principal caso de sucesso não só no Brasil, mas no mundo, ocorre com a cultura da soja brasileira. A história começou graças à intervenção visionária de dois grandes pesquisadores brasileiros, no início dos anos 1960, os microbiologistas Prof. João Ruy Jardim Freire e Dra. Johanna Döbereiner. Eles convenceram o comitê nacional que estudava como expandir a cultura da soja no país a adotarem bactérias fixadoras de nitrogênio atmosférico para a nutrição nitrogenada das plantas. Essas bactérias que, no caso da soja, são denominadas como Bradyrhizobium spp. capturam o nitrogênio do ar e o transformam em um nutriente essencial para o crescimento vegetal. 

Desde então, a pesquisa brasileira nunca parou, tem buscado estirpes (cepas) mais eficientes, genótipos de soja mais responsivos às bactérias, tecnologias de aplicação dos microrganismos. A pesquisa também apoiou o desenvolvimento industrial, inclusive na instalação das primeiras indústrias de inoculantes e elaborou os princípios da legislação brasileira para esses insumos. Com a continuidade da pesquisa, pois a dinâmica da cultura exige atualizações tecnológicas a cada ano, os avanços necessários foram conseguidos, e têm sempre resultado em que as bactérias selecionadas pela pesquisa conseguissem suprir totalmente as necessidades da soja em nitrogênio, mesmo de cultivares com alto potencial de produção. 

Além disso, décadas de atividades de divulgação científica e extensão conseguiram empoderar os agricultores brasileiros com conhecimento sobre inoculantes. Eles passaram a reconhecer seus benefícios, o que resultou na taxa de adoção anual mais elevada do mundo, 85% de toda a área cultivada com soja no Brasil, ou seja, mais de 40 milhões de hectares na safra 2025/26 utilizaram bioinsumos.

Ampliação do uso para outras culturas e redução de custos – o retorno econômico do uso da fixação biológica do nitrogênio com a soja fez com que os agricultores solicitassem soluções para outras culturas, principalmente o milho. Mais uma vez, a pesquisa estava pronta para procurar soluções e, após intensa bioprospecção, foram identificadas duas bactérias de Azospirillum brasilense, uma com capacidade de fixação de nitrogênio (modesta, mas importante) e a outra de sintetizar fitormônios, que estimulam fortemente o crescimento das raízes, facilitando a absorção de água e nutrientes. Novamente, os benefícios foram confirmados pelos agricultores e, na safra de 2025/26, essas bactérias já foram utilizadas em mais de 10 milhões de hectares.

Mas a microrrevolução não parou aí. Novas tecnologias vêm ampliando os ganhos. Um dos exemplos mais promissores é a coinoculação da soja — a combinação de diferentes microrganismos com funções complementares, a “indústria de nitrogênio” Bradyrhizobium spp. e a “indústria de fitormônios” Azospirillum brasilense,  dobram os benefícios. Como exemplo do impacto, em um trabalho de extensão realizado por cinco anos junto a 3.299 pequenos agricultores do Paraná, produtores de no máximo 50 hectares, o retorno econômico pelo uso da coinoculação foi de U$ 111 por hectare. Em uma década a tecnologia já foi adotada em 57% de toda a área sob cultivo com a soja no Brasil.

Necessidade de investimento contínuo em pesquisa – apesar dos avanços, o crescimento acelerado do setor traz desafios importantes. Um dos principais é garantir a qualidade dos produtos. Diferentemente do que se imagina, bioinsumos como os inoculantes não são simples de produzir. Eles exigem conhecimento científico, controle rigoroso e validação em campo. Produtos de baixa qualidade podem comprometer resultados, disseminar patógenos e colocar em risco a credibilidade da tecnologia. Por isso, especialistas alertam: o sucesso depende de ciência, regulamentação e boas práticas. Outro ponto crítico é o investimento em pesquisa. O Brasil construiu sua liderança com base em décadas de pesquisa. A redução de recursos nessa área pode comprometer a capacidade de inovação justamente no momento em que novos desafios, como mudanças climáticas e novas pragas, exigem soluções ainda mais avançadas.

Não há dúvidas de que o impacto dos inoculantes no Brasil é gigantesco. Considerando somente a cultura da soja e a última safra, a economia por não utilizar fertilizantes nitrogenados foi de U$ 29 bilhões. Foram deixados de emitir para a atmosfera 280 milhões de toneladas de gás carbônico, o equivalente ao carbono que seria absorvido por 4,6 bilhões de mudas de árvores crescendo ao longo de 10 anos. Além disso, os inoculantes diminuem a dependência de insumos químicos importados, incentivam o desenvolvimento industrial nacional e de produtos com base na biodiversidade brasileira, fortalecendo a bioeconomia. O Brasil também mostrou ao mundo que microrganismos podem sustentar altos níveis de produtividade. 

Sem dúvida, o futuro na agricultura já começou — é biológico. O Brasil está na linha de frente dessa transformação.

Autora

Uma das mais importantes cientistas brasileiras na área de agronomia e microbiologia do solo, reconhecida internacionalmente por suas pesquisas sobre fixação biológica de nitrogênio. Em 2025, ganhou o World Food Prize, considerado o “Nobel da Agricultura”, pelo impacto global de suas pesquisas. Em 2026 foi incluída entre as 100 pessoas mais influentes do mundo, na categoria “Pioneiros”. Pesquisadora da Embrapa desde 1982 e da Embrapa Soja desde 1991. Recebeu mais de 55 prêmios, consolidando-se como uma das cientistas mais influentes do mundo. Tem pós-doutorados em instituições de excelência nos EUA e na Europa. Publicou mais de 500 trabalhos científicos e orientou mais de 275 alunos. Desenvolveu tecnologias que são aplicadas em milhões de hectares.

Mariangela Hungria

Uma das mais importantes cientistas brasileiras na área de agronomia e microbiologia do solo, reconhecida internacionalmente por suas pesquisas sobre fixação biológica de nitrogênio. Em 2025, ganhou o World Food Prize, considerado o “Nobel da Agricultura”, pelo impacto global de suas pesquisas. Em 2026 foi incluída entre as 100 pessoas mais influentes do mundo, na categoria “Pioneiros”. Pesquisadora da Embrapa desde 1982 e da Embrapa Soja desde 1991. Recebeu mais de 55 prêmios, consolidando-se como uma das cientistas mais influentes do mundo. Tem pós-doutorados em instituições de excelência nos EUA e na Europa. Publicou mais de 500 trabalhos científicos e orientou mais de 275 alunos. Desenvolveu tecnologias que são aplicadas em milhões de hectares.